* Barragem do Córrego do Feijão, Brumadinho, mais um crime contra Minas Gerais! *

Após o CRIME DA VALE em Brumadinho, a Aliança apoiou um grupo de voluntários que atuou e ainda atua no apoio e ajuda básica à população nas áreas afetadas, no Córrego do Feijão em São João de Bicas. Entre os voluntários está Joelma do Couto, que registrou algumas cenas daquele momento que jamais serão esquecidas:

‘Em 05 de novembro de 2015, a Barragem do Fundão, em Mariana, rompeu liberando 45 milhões de m³ de sedimentos no Rio Doce. A lama percorreu aproximadamente 600 km chegando às cidades de Colatina, Linhares e Baixo Guandu, no Estado do Espirito Santo, ee contaminando todo o Delta do Rio Doce.

A barragem, pertencente à Samarco/Vale/BHP Billinton, destruiu distritos, afetou cidades, deixou centenas de milhares de pessoas sem água potável, contaminou afluentes do Rio Doce e chegou até o litoral capixaba. Dezenove pessoas foram assassinadas e um número incontável de animais e plantas também perderam a vida. Centenas de pescadores que viviam da pesca no Rio Doce e no litoral do Espírito Santo perderam sua principal fonte de sustento e renda.

Passados apenas três anos do rompimento da Barragem do Fundão, outro crime acontece. No dia 26 de janeiro de 2019, a Barragem do Feijão, em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, também veio abaixo tirando a vida de centenas de trabalhadores, milhares de animais que viviam nas matas atingidas, nas margens e nas águas do Rio Paraopeba, além de causar a morte do próprio rio, um dos principais afluentes do Rio São Francisco, o Rio da Integração Nacional.

Infelizmente, o cenário de destruição em Brumadinho traz o alerta de que muitas outras barragens podem se romper a qualquer instante. A região metropolitana de Belo Horizonte vive o drama de ter que conviver com as sirenes de alerta da Barragem dos Macacos, em Nova Lima, onde centenas de pessoas já tiveram que deixar suas casas. Não distante dali, em Itatiaiuçu, dezenas de pessoas também foram evacuadas devido ao risco de rompimento de outra barragem; o município de Barão de Cocais vive o mesmo drama. Na bela Serra do Curral, patrimônio histórico de Minas Gerais, uma cratera criada depois de décadas de mineração ameaça a capital mineira.

Isso para citar apenas quatro exemplos do mar de barragens que ameaça o Estado de Minas Gerais. Segundo o Banco de dados de barragens da Fundação Estadual de Meio Ambiente, em 2017 o Estado possuía 698 barragens sendo 190 estruturas classe l, 303 estruturas classe ll e 205 classes lll. Ainda segundo dados do FEA das 698 barragens os auditores não concluíram a vistoria nem em 10 delas, nem garantiram a estabilidade de outras 12 barragens.

A Barragem de Águas Claras e a Barragem de Rejeitos (ambas da UTM/Caldas) não tiveram a auditoria concluída por falta dados ou documentos técnicos. Estas barragens têm um agravante, por se localizarem em área de depósito de rejeitos radioativos.

A Vale está procurando quem tenha perdido familiares e oferecendo uma doação de R$100 mil mas afirma que não se trata de indenização.

Em Brumadinho o que se ouve é que os números oficiais camuflam a verdade por trás do número de mortes e desaparecidos. Acredita-se que pelo menos 600 pessoas estão desaparecidas. A região também é conhecida pela existência de trabalho análogo à escravidão. A própria Vale, em 2015, foi autuada por manter 309 trabalhadores, em Itabirito, em condições análogas a de escravos.

A ação foi fruto de uma operação conjunta entre Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal. Caso a lama tenha passado por alojamentos de pessoas em situação análoga à escravidão, quem irá falar por elas?

Como as famílias que moram ao longo do Rio Paraopeba poderão provar que um familiar está desaparecido porque foi pego de surpresa pelo tsunami de lama da Vale? E aqueles que moravam sozinhos e perderam a vida? Como dimensionar os impactos ambientais, sociais e econômicos que ainda estão por vir? Como colocar preço nas vidas e na biodiversidade que se perdeu? Será que os 10% do PIB de Minas que provém da mineração vale este vale de mortes e a contaminação de nossos rios? As perguntas são muitas, mas os riscos são maiores.

Ainda é muito cedo para termos realmente noção do que significam estes dois crimes cometidos pela ganância das empresas e omissão do poder público e da sociedade. O que podemos afirmar é que a próxima geração de “mineiros” não terá a mesma qualidade de vida que temos hoje, orgulho das montanhas e das minas d’agua que hoje tratamos com tanto desrespeito e irresponsabilidade, pois elas talvez não existam mais.’

Texto e fotos: Joelma do Couto

Posted by Aliança em Prol da APA da Pedra Branca on Wednesday, February 20, 2019